JJ

Durante muito tempo, deitava-me cedo. Às vezes, mal apagada a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Vou dormir”. E, meia hora depois, a ideia de que já era tempo de conciliar o sono me despertava: queria deixar o livro que julgava ainda ter nas mãos e assoprar a vela; dormindo, não havia deixado de refletir sobre o que acabara de ler, porém tais reflexões haviam tomado um aspecto um tanto singular; parecia-me que era de mim mesmo que o livro falava: uma igreja, um quarteto, a rivalidade de Francisco I e Carlos V.   (trecho de No Caminho de Swann, da obra Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.)

Jorge e Josinaldo viveram toda a vida em eterno conflito. Cresceram juntos disputando a atenção de parentes, amigos, vizinhos ou de quem quer que fosse. Não que isso fosse importante para um como era para o outro, já que, apesar de gêmeos idênticos, tinham cada um seu jeito de ser e de encarar a vida. Apesar dessa visível diferença entre suas personalidades, a indisfarçável semelhança física de gêmeos univitelinos, fez com que os amigos mais criativos passassem a chamá-los – a ambos – de Josinaldo Jorge, como se fossem apenas um. Daí para o apelido JJ, foi só mais um pequeno passo. Eu, que os conheço bem, não vou nomeá-los indicando individualmente seus defeitos e qualidades. No fundo, é tudo “farinha do mesmo saco”!
O que posso contar é que enquanto um curtia uma pelada na vila onde moravam, o outro preferia ficar ouvindo o “Show dos Bairros” na Rádio Mundial e o “Músicas na Passarela” na Rádio Tamoio; ambas em AM, que ainda não haviam chegado os tempos de FM.
Na escola, claro que o que era chegado à música se dava bem nas provas, enquanto o peladeiro passava de ano porque colava do irmão CDF.
Ingressaram juntos em escola militar quando chegou a hora de cursar o científico – que depois passou a ser chamado de segundo grau e finalmente ensino médio. Curiosamente nenhum dos dois decidiu seguir carreira, lógico que por motivos diferentes: um por ser tímido demais para dar e seguir ordens aos gritos, o outro por ser distraído e destrambelhado em demasia para pertencer ao quadro de carreira de qualquer instituição militar que fosse.
Torcedores fanáticos do Fluminense Football Club – tradicional agremiação desportiva da cidade do Rio de Janeiro – o verdadeiro TRICOLOR, eram frequentadores animados das arquibancadas do velho Maraca. Até que as primeiras paixões sérias começaram a ocupar cada vez mais espaço em suas vidas. Como sempre, cada um vivia seus romances à sua própria maneira: um apaixonava-se com facilidade, bastando que a menina o derretesse com seus olhares ‘cupidosos’. Já o outro, claro, preferia a conquista barata e o gozo fácil e fugaz. Um casou cedo e logo foi pai, o outro preferiu continuar a viver de breves romances.
No trabalho, ambos conseguiram sempre suprir suas necessidades, um por meio de seus esforços e aplicação, que lhe renderam aprovação em vários concursos públicos até conseguir aquele onde achava que poderia acomodar seu espírito pacífico e contemplativo; o outro, como não poderia deixar de ser, seguia na aba do irmão, que sempre lhe arrumava o que fazer.
Hoje, essa dupla de sessentões cariocas, parte rumo a outros destinos, ou melhor, tentam fazer de seus destinos algo que valha a pena. No amor, aquele outrora apaixonado rapaz, ainda busca sua companheira da melhor idade. Filhos criados, netos crescendo ou chegando, é hora de namoro maduro e esse é o seu maior objetivo. O fanfarrão, o pretenso garanhão, agora aprendeu a valorizar as qualidades do irmão careta e procura estar sempre perto dele; quem sabe lhe sobra uma das boas mulheres que se interessam pelo – ainda – romântico e apaixonado idoso?

(E aí você perguntaria: “o que te fez associar este vídeo a esta estória?” É preciso um motivo? Respondo eu com outra pergunta. Como estou com tempo neste momento, conto que ao assistir no Vimeo a mais esse vídeo do Alex Vargens que, involuntariamente, está virando meu “sócio”, vidrei na face do senhor idoso que aparece lá pelos 0:56 e isso me bastou.)
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Levo a vida e deixo a vida me levar

Não vou me benzer nem rezar O que tiver que ser será! Roger de Sena (25/07/2015 - 09:48)

Não vou me benzer nem rezar
O que tiver que ser será!
Roger de Sena (25/07/2015 – 09:48)

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Envergo, mas não quebro

“Quando é má a maré
E quando já não dá pé
Não me revolto ou me queixo

E tal qual um barco solto
Salto alto mar revolto
Volto firme pro meu eixo

Em noite assim como esta
Eu cantando numa festa
Ergo o meu copo e celebro

Os bons momentos da vida
E nos maus tempos da lida
Eu envergo, mas não quebro”

Envergo, Mas Não Quebro

Lenine

Se por acaso pareço
E agora já não padeço
Um mal pedaço na vida

Saiba que minha alegria
Não é normal todavia
Com a dor é dividida

Eu sofro igual todo mundo
Eu apenas não me afundo
Em sofrimento infindo

Eu posso até ir ao fundo
De um poço de dor profundo
Mas volto depois sorrindo

Em tempos de tempestades
Diversas adversidades
Eu me equilibro e requebro

É que eu sou tal qual a vara
Bamba de bambu-taquara
Eu envergo, mas não quebro
Eu envergo, mas não quebro

Não é só felicidade
Que tem fim na realidade
A tristeza também tem

Tudo acaba, se inicia
Temporal e calmaria
Noite e dia, vai e vem

Quando é má a maré
E quando já não dá pé
Não me revolto ou me queixo

E tal qual um barco solto
Salto alto mar revolto
Volto firme pro meu eixo

Em noite assim como esta
Eu cantando numa festa
Ergo o meu copo e celebro

Os bons momentos da vida
E nos maus tempos da lida
Eu envergo, mas não quebro
Eu envergo, mas não quebro
Eu envergo, mas não quebro
Eu envergo, mas não quebro

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Minha homenagem ao Papa Francisco

Depois de quase exatos 3 anos e meio sem publicações, retorno para fazer esta homenagem ao Papa Francisco que, em sua visita ao Rio durante a JMJ 2013, trouxe um pouco de ânimo e esperança à alma de nossa cidade. Apesar de ateu convicto, mantenho uma enorme fé no Homem, no ser humano de bem, e, portanto, assim como em uma outra publicação neste blog, em que homenageei a Monja Coen reproduzindo seu testemunho sobre o Japão e os japoneses depois da catástrofe de 2011, esta é uma publicação em homenagem a outro líder religioso de grande valor. Reproduzo abaixo seu discurso aos participantes do Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em 28 de outubro de 2014, originalmente publicado no portal oficial do Vaticano.

(inseri, ao final, um vídeo com uma música que, creio, combina com a publicação; sugiro que a apreciem durante a leitura)

DISCURSO DO PAPA FRANCISCO
AOS PARTICIPANTES NO ENCONTRO MUNDIAL DOS MOVIMENTOS POPULARES

Ex-Sala do Sínodo
Terça-feira, 28 de Outubro de 2014

De novo, bom dia!

Sinto-me feliz por estar convosco, e faço-vos uma confidência: é a primeira vez que desço aqui, nunca tinha vindo cá. Como dizia, sinto grande alegria e dou-vos as calorosas boas-vindas.

Agradeço-vos por terdes aceite este convite para debater os problemas sociais muito graves que afligem o mundo de hoje, vós que viveis na vossa pele a desigualdade e a exclusão. Um obrigado ao cardeal Turkson pelo seu acolhimento, obrigado, Eminência, pelo seu trabalho e palavras.

Este encontro dos Movimentos populares é um sinal, um grande sinal: viestes apresentar diante de Deus, da Igreja e dos povos uma realidade que muitas vezes passa em silêncio. Os pobres não só suportam a injustiça mas também lutam contra ela!

Não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou álibis. Nem sequer estão à espera de braços cruzados da ajuda de Ongs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam, ou que, se chegam, fazem-no de maneira a ir na direcção de anestesiar ou domesticar, o que é bastante perigoso. Vós sentis que os pobres não esperam mais e querem ser protagonistas; organizam-se, estudam, trabalham, exigem e sobretudo praticam aquela solidariedade tão especial que existe entre quantos sofrem, entre os pobres, e que a nossa civilização parece ter esquecido, ou pelo menos tem grande vontade de esquecer.

Solidariedade é uma palavra que nem sempre agrada; diria que algumas vezes a transformámos num palavrão, não se pode dizer; mas uma palavra é muito mais do que alguns gestos de generosidade esporádicos. É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridades da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. É também lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, a terra e a casa, a negação dos direitos sociais e laborais. É fazer face aos efeitos destruidores do império do dinheiro: as deslocações forçadas, as emigrações dolorosas, o tráfico de pessoas, a droga, a guerra, a violência e todas aquelas realidades que muitos de vós suportam e que todos estamos chamados a transformar. A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo, é uma forma de fazer história e é isto que os movimentos populares fazem.

Este nosso encontro não corresponde a uma ideologia. Vós não trabalhais com ideias, mas com realidades como as que mencionei e muitas outras que me descrevestes. Tendes os pés na lama e as mãos na carne. O vosso cheiro é de bairro, de povo, de luta! Queremos que a vossa voz seja ouvida, a qual, normalmente, é pouco escutada. Talvez porque incomoda, talvez porque o vosso grito incomoda, talvez porque se tem medo da mudança que vós pretendeis, mas sem a vossa presença, sem ir realmente às periferias, as boas propostas e os projectos que muitas vezes ouvimos nas conferências internacionais permanecem no reino da ideia, é um projecto meu.

Não se pode enfrentar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que só tranquilizam e transformam os pobres em seres domesticados e inofensivos. Como é triste ver que, por detrás de presumíveis obras altruístas, o outro é reduzido à passividade, é negado ou, ainda pior, escondem-se negócios e ambições pessoais: Jesus defini-los-ia hipócritas. Mas como é agradável quando se vêem em movimento povos e sobretudo os seus membros mais pobres e os jovens. Então sim, sente-se o vento de promessa que reacende a esperança num mundo melhor. Que este vento se transforme em furacão de esperança. Eis o meu desejo.

Este nosso encontro responde a um anseio muito concreto, a algo que qualquer pai, qualquer mãe, quer para os próprios filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais distante da maioria das pessoas: terra, casa e trabalho. É estranho, mas se falo disto para alguns o Papa é comunista. Não se compreende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, casa e trabalho, aquilo pelo que lutais, são direitos sagrados. Exigi-lo não é estranho, é a doutrina social da Igreja. Medito sobre cada um deles, porque os escolhestes como palavra de ordem para este encontro.

Terra. No início da criação, Deus criou o homem para ser guardião da sua obra, confiando-lhe o encargo de a cultivar e proteger. Vejo que estão aqui dezenas de camponeses e camponesas e quero felicitar-me com eles porque guardam a terra, cultivam-na e fazem-no em comunidade. Preocupa-me o desenraizamento de tantos irmãos camponeses que sofrem por este motivo e não por guerras ou desastres naturais. A monopolização de terras, a desflorestação, a apropriação da água, os pesticidas inadequados, são alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal. Esta dolorosa separação não é só física mas também existencial e espiritual, porque existe uma relação com a terra que está a pôr a comunidade rural e o seu peculiar estilo de vida em decadência evidente e até em risco de extinção.

A outra dimensão do processo já global é a fome. Quando a especulação financeira condiciona o preço dos alimentos tratando-os como uma mercadoria qualquer, milhões de pessoas sofrem e morrem de fome. Por outro lado, descartam-se toneladas de alimentos. Isto constitui um verdadeiro escândalo. A fome é criminosa, a alimentação é um direito inalienável. Sei que alguns de vós pedem uma reforma agrária para resolver alguns destes problemas e, deixai que eu diga que em certos países, e aqui cito o Compêndio da doutrina social da Igreja, «a reforma agrária torna-se por conseguinte, além de uma necessidade política, uma obrigação moral» ( CDSI , n. 300).

Não o digo só eu, mas está escrito no Compêndio da doutrina social da Igreja. Por favor, continuai a lutar pela dignidade da família rural, pela água, pela vida e para que todos possam beneficiar dos frutos da terra.

Segundo, Casa. Já o disse e repito-o: uma casa para cada família. Nunca se deve esquecer que Jesus nasceu num estábulo porque não havia lugar nas estalagens, que a sua família teve que abandonar a própria casa e fugir para o Egipto, perseguida por Herodes. Hoje há tantas famílias sem casa, porque nunca a tiveram ou porque a perderam por diversos motivos. Família e casa caminham juntas! Mas um tecto, para que seja um lar, deve ter também uma dimensão comunitária: o bairro, e é precisamente no bairro que se começa a construir esta grande família da humanidade, a partir daquilo que é mais imediato, da convivência com a vizinhança. Hoje vivemos em cidades imensas que se mostram modernas, orgulhosas e até vaidosas. Cidades que oferecem numerosos prazeres e bem-estar para uma minoria feliz mas nega-se uma casa a milhares de vizinhos e irmãos nossos, até crianças, e chamamo-lhes, elegantemente, «pessoas sem abrigo». É curioso como abundam os eufemismos no mundo das injustiças. Não se usam as palavras exactas, e procura-se a realidade no eufemismo. Uma pessoa, uma pessoa segregada, é uma pessoas excluída, que está a sofrer devido à miséria, à fome, é uma pessoa desabrigada; expressão elegante, não é? Procurai sempre; poderia estar errado nalguns casos, mas em geral por detrás de um eufemismo esconde-se um delito.

Vivemos em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários mas abandonam uma parte de si às margens, nas periferias. Como faz mal ouvir que as povoações pobres são marginalizadas ou, pior ainda, que as querem deslocar! São cruéis as imagens dos despejos, das gruas que abatem barracas, imagens tão parecidas com as da guerra. E hoje vê-se isto.

Sabeis que nos bairros populares onde muitos de vós viveis subsistem valores já esquecidos nos centros enriquecidos. Estas povoações são abençoadas por uma rica cultura popular, ali o espaço público não é apenas um lugar de trânsito mas uma extensão da própria casa, um lugar no qual gerar vínculos com a vizinhança. Como são bonitas as cidades que superam a desconfiança doentia, integram os diversos e fazem desta integração um novo factor de progresso! Como são bonitas as cidades que, também no seu projecto arquitectónico, estão cheias de espaços que unem, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro! Por isso, nem desenraizamento nem marginalização: é preciso seguir a linha da integração urbana! Esta expressão deve substituir completamente a palavra desenraizamento, agora, mas também aqueles projectos que pretendem envernizar de novo os bairros pobres, embelezar as periferias e «disfarçar» as feridas sociais em vez de as curar, promovendo uma integração autêntica e respeitadora. É uma espécie de arquitectura de aparência, não é? E vai nesta direcção. Continuemos a trabalhar para que todas as famílias tenham uma casa e todos os bairros tenham uma infra-estrutura adequada (esgotos, luz, gás, estradas asfaltadas, e continuo: escolas, hospitais, centros de urgências, círculos desportivos e todas as coisas que criam vínculos e unem, acesso à saúde — já o disse — à educação e à segurança da propriedade.

Terceiro, Trabalho. Não existe pior pobreza material — faço questão de o frisar — da que não permite que se ganhe o pão e priva da dignidade do trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos laborais não são inevitáveis, são o resultado de uma prévia opção social, de um sistema económico que põe os benefícios acima do homem, se o benefício é económico, acima da humanidade ou do homem, são efeitos de uma cultura do descarte que considera o ser humano como um bem de consumo, que se pode usar e depois deitar fora.

Hoje, ao fenómeno da exploração e da opressão soma-se uma nova dimensão, um aspecto gráfico e duro da injustiça social; os que não se podem integrar, os excluídos são descartados, «a demasia». Esta é a cultura do descarte, e sobre este ponto gostaria de acrescentar algo que não tenho aqui escrito, mas que me veio agora à mente. Isto acontece quando no centro de um sistema económico está o deus dinheiro e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de cada sistema social ou económico deve estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que seja o denominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e chega o deus dinheiro dá-se esta inversão de valores.

E para o ilustrar recordo aqui um ensinamento do ano 1200. Um rabino judeu explicava aos seus fiéis a história da torre de Babel e contava como, para construir aquela torre, era preciso fazer um grande esforço, era necessário fabricar tijolos, e para fabricar tijolos era preciso fazer lama, procurar a palha, e misturar a lama com a palha, depois parti-la em quadrados e pô-la a secar, depois cosê-la, e quando os tijolos estavam prontos e frios, carregá-los para construir a torre. Se um tijolo caía — tinha custado tanto com todo aquele trabalho — era quase uma tragédia nacional. Quem o deixasse cair era punido ou despedido, e não sei o que mais lhe faziam, mas se caía um operário nada acontecia. Acontece isto quando a pessoa está ao serviço do deus dinheiro; e já o narrava um rabino no ano 1200, explicando estas coisas horríveis.

No respeitante ao descarte devemos estar também um pouco atentos a quanto acontece na nossa sociedade. Estou a repetir coisas que disse e que se encontram na Evangelii gaudium . Hoje descartam-se crianças porque a taxa de natalidade em muitos países da terra diminuiu ou descartam-se as crianças por falta de alimentos ou porque são mortos antes de nascer: descarte de crianças.

Descartam-se os idosos porque não servem, não produzem; nem crianças nem idosos produzem, então são abandonados lentamente com sistemas mais ou menos sofisticados, e agora, dado que nesta crise é preciso recuperar um certo equilíbrio, assiste-se a um terceiro descarte muito doloroso: o descarte dos jovens. Milhões de jovens — não digo o número porque não o conheço exactamente e o que li me parece um pouco exagerado — milhões de jovens são descartados do trabalho, desempregados.

Nos países europeus, e estas sim, são estatísticas muito claras, aqui na Itália, os jovens desempregados são um pouco mais de quarenta por cento; sabeis o que significa quarenta por cento de jovens, uma geração inteira, anular toda uma geração para manter o equilíbrio. Outro país europeu está a superar cinquenta por cento, e nesse mesmo país de cinquenta por cento, no sul é sessenta por cento. São números claros, ou seja do descarte. Descarte de crianças, descarte de idosos, que não produzem, e temos que sacrificar uma geração de jovens, descarte de jovens, para poder manter e reequilibrar um sistema no qual no centro está o deus dinheiro e não a pessoa humana.

Não obstante esta cultura do descarte, esta cultura da demasia, muitos de vós, trabalhadores excluídos, em excesso para este sistema, inventastes o vosso trabalho com tudo o que parecia não poder ser mais usado mas vós, com a vossa habilidade artesanal, que Deus vos deu, com a vossa busca, com a vossa solidariedade, com o vosso trabalho comunitário, com a vossa economia popular, conseguistes e estais a conseguir… E, deixai que vos diga, isto, além de ser trabalho, é poesia! Obrigado.

Já agora, cada trabalhador, quer faça parte quer não do sistema formal do trabalho assalariado, tem direito a uma remuneração digna, à segurança social e a uma cobertura para a aposentadoria. Aqui estão cartoneros, recicladores, vendedores ambulantes, costureiros, artesãos, pescadores, camponeses, pedreiros, mineiros, operários de empresas recuperadas, membros de cooperativas de todos os tipos e pessoas com as profissões mais comuns, que são excluídas dos direitos dos trabalhadores, aos quais é negada a possibilidade de ter um sindicato, que não têm uma remuneração adequada e estável. Hoje desejo unir a minha voz à deles e acompanhá-los na luta.

Falastes neste encontro também de Paz e Ecologia. É lógico: não pode haver terra, não pode haver casa, não pode haver trabalho se não tivermos paz e se destruirmos o planeta. São temas tão importantes que os povos e as suas organizações de base não podem deixar de enfrentar. Não podem permanecer só nas mãos dos dirigentes políticos. Todos os povos da terra, todos os homens e mulheres de boa vontade, todos devemos levantar a voz em defesa destes dois dons preciosos: a paz e a natureza. A irmã e mãe terra, como lhe chamava são Francisco de Assis.

Há pouco disse, e repito-o, que estamos a viver a terceira guerra mundial, mas por etapas. Há sistemas económicos que para sobreviver devem fazer a guerra. Então fabricam-se e vendem-se armas e assim os balanços das economias que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro obviamente estão salvos. E não se pensa nas crianças famintas nos campos de refugiados, não se pensa nos deslocamentos forçados, não se pensa nas casas destruídas, não se pensa nem sequer nas tantas vidas destroçadas. Quantos sofrimentos, quanta destruição, quantas dores! Hoje, queridos irmãos e irmãs, eleva-se de todas as partes da terra, de cada povo, de cada coração e dos movimentos populares, o brado da paz: nunca mais a guerra!

Um sistema económico centrado no deus dinheiro tem também necessidade de saquear a natureza, saquear a natureza para manter o ritmo frenético de consumo que lhe é próprio. A mudança climática, a perda da biodiversidade, a desflorestação já estão a mostrar os seus efeitos devastadores nas grandes catástrofes às quais assistimos, e quem sofre mais sois vós, os humildes, vós que viveis nas zonas litorais em habitações precárias ou que sois tão vulneráveis economicamente que perdeis tudo face a um desastre natural. Irmãos e irmãs: a criação não é uma propriedade da qual podemos dispor a nosso bel-prazer; e muito menos é uma propriedade só de alguns, de poucos. A criação é um dom, uma dádiva, uma doação maravilhosa que Deus nos deu para que dela nos ocupemos e a utilizemos em benefício de todos, sempre com respeito e gratidão. Talvez saibais que estou a preparar uma encíclica sobre a Ecologia: estai certos de que as vossas preocupações estarão presentes nela. Agradeço, aproveito para agradecer a carta, relativa a esta temática, que me enviaram os membros da Vía Campesina, a Federação dos Cartoneros e muitos outros irmãos.

Falamos de terra, de trabalho, de casa. Falamos de trabalhar pela paz e de cuidar da natureza. Mas então por que nos habituamos a ver como se destrói o trabalho digno, se despejam tantas famílias, se afastam os camponeses, se faz guerra e se abusa da natureza? Porque neste sistema o homem, a pessoa humana foi deslocada do centro e substituída por outra coisa. Porque se presta um culto idolátrico ao dinheiro. Porque se globalizou a indiferença! A indiferença foi globalizada: que me importa do que acontece aos outros para defender o que é meu? Porque o mundo se esqueceu de Deus, que é Pai; tornou-se órfão porque pôs Deus de lado.

Alguns de vós disseram: este sistema já não funciona. Devemos mudá-lo, devemos voltar a pôr a dignidade humana no centro e sobre aquele pilar devem ser construídas as estruturas sociais alternativas das quais precisamos. Com paixão, mas sem violência. E todos juntos, enfrentando os conflitos sem cair na sua cilada, procurando resolver sempre as tensões para alcançar um nível superior de unidade, de paz e de justiça. Nós cristãos temos algo muito bonito, uma linha de acção, um programa, poderíamos dizer, revolucionário. Recomendo-vos vivamente que o leiais, que leiais as bem-aventuranças no capítulo 5 de são Mateus e 6 de são Lucas (cf. Mt 5, 3 e Lc 6, 20), e também o trecho de Mateus 25. Disse isto aos jovens no Rio de Janeiro, nestas duas narrações tem o programa de acção.

Sei que entre vós há pessoas de diversas religiões, profissões, ideais, culturas, países e continentes. Hoje estais a praticar aqui a cultura do encontro, tão diversa da xenofobia, da discriminação e da intolerância que vemos com muita frequência. Produz-se entre os excluídos este encontro de culturas no qual o todo não anula a particularidade, o todo não anula o particular. Por isso me agrada a imagem do poliedro, uma figura geométrica com muitos lados diversos. O poliedro reflecte a confluência de todas as parcialidades que nele conservam a originalidade. Nada se dissolve, nada se destrói, nada se domina, tudo se integra, tudo se integra. Hoje estais a procurar a síntese entre o local e o global. Sei que estais comprometidos todos os dias em coisas próximas, concretas, no vosso território, no vosso bairro, no vosso lugar de trabalho: convido-vos também a continuar a procurar esta perspectiva mais ampla; que os vossos sonhos voem alto e abracem o todo!

Por isso me parece importante a proposta, da qual alguns de vós falaram, de que estes movimentos, estas experiências de solidariedade que crescem de baixo, do subsolo do planeta, confluam, sejam mais coordenados, se encontrem, como fizestes vós nestes dias. Atenção, nunca é um bem conter o movimento em estruturas rígidas, por isso disse encontrar-se, e procurar absorvê-lo, dirigi-lo ou dominá-lo ainda menos; os movimentos livres têm uma sua dinâmica, mas sim, devemos procurar caminhar juntos. Estamos nesta sala, que é a sala velha do Sínodo, agora há uma nova, e sínodo significa precisamente «caminhar juntos»: que este seja um símbolo do processo que iniciastes e que estais a levar por diante!

Os movimentos populares expressam a necessidade urgente de revitalizar as nossas democracias, tantas vezes desviadas por inúmeros factores. É impossível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação como protagonistas das grandes maiorias e este protagonismo transcende os procedimentos lógicos da democracia formal. A perspectiva de um mundo de paz e de justiça duradouras pede que superemos o assistencialismo paternalista, exige que criemos novas formas de participação que incluam os movimentos populares e animem as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com aquela torrente de energia moral que nasce da integração dos excluídos na construção do destino comum. E assim com ânimo construtivo, sem ressentimento, com amor.

Acompanho-vos de coração neste caminho. Digamos juntos de coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que provém do trabalho.

Queridos irmãos e irmãs: continuai a vossa luta, fazei o bem para todos nós. É como uma bênção de humanidade. Deixo-vos como recordação, como prenda e com a minha bênção, alguns rosários que foram fabricados por artesãos, cartoneros e trabalhadores da economia popular da América Latina.

E ao acompanhar-vos rezo por vós, rezo convosco e desejo pedir a Deus Pai que vos acompanhe e abençoe, vos cumule com o seu amor e vos acompanhe no caminho, dando-vos abundantemente aquela força que nos mantém em pé: esta força é a esperança, a esperança que não desilude. Obrigado.

(tradução original do portal do Vaticano em português de Portugal)

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Pensando na morte de Bin Laden

No Rio não houve comemorações pela morte de Bin Laden. Léo Lince diz em seu artigo “A vitória do terror” (Correio da Cidadania, 06/05/2011) que “tripudiar, comemorar, sapatear sobre os restos mortais até do pior inimigo é uma atitude infamante”. E foi essa a minha visão da comemoração de estadunidenses comuns (????).

Será que nós, cariocas, temos um inimigo comum que nos faria comemorar da mesma forma que eles em caso de sua eliminação?

Não é isso que, a meu ver, passa pela alma do Rio. E olhe que inimigo é o que não nos falta! Desde o vizinho mal-educado ao prefeito mauricinho. Como povo, somos incapazes de exercitar o ódio. Todos os nossos inimigos terminam por ser perdoados e, em caso de sua morte, muitos acabam até pranteados.

Preciso dar exemplos? Penso que não. Aqueles que quiserem que façam pesquisas pela grande rede e comprovem que todos os monstros, candidatos a inimigo público número um dos cariocas, acabaram soltos, absolvidos ou esquecidos depois da pena, cumprida ou não.

Nos meus tempos de criança, num programa humorístico, a secretária gostosa com

English: Sylvester Stalone at the 2010 Comic C...

Image via Wikipedia

sotaque norte-americano, personagem interpretada por Kate Lyra, dizia que o “brasileiro é muito bonzinho”. Há poucos meses, Sylvester Stallone comentando seu filme, que teve o Rio como cenário, disse que “Você pode explodir o país e eles vão dizer ‘obrigado, e aqui está um macaco’“. Depois, ao perceber a mancada, desculpou-se, claro. Num caso, o primeiro, via-se o lado sonso do brasileiro; no outro, o de Stallone, o famoso complexo de vira-latas que, pelo jeito, continuam a ver em nós.

Acho que essa alma boazinha do brasileiro, quiça ainda maior no carioca, precisa de uma boa pincelada de atitude. Algo que não nos faça sapatear na cova dos inimigos, mas que promova a conquista do verdadeiro espírito de cidadania e civilidade.

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Reprodução da Mensagem da Monja Coen

Mensagem da Monja Coen sobre o Japão de agora

“Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do povo Japonês: kokoro.

Kokoro ou Shin significa coração-mente-essência.

Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar

Map of Japan with Fukushima highlighted

Image via Wikipedia

à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?

Outra palavra é gaman: aguentar, suportar. Educação para ser capaz de suportar dificuldades e superá-las.

Assim, os eventos de 11 de março, no Nordeste japonês, surpreenderam o mundo de duas maneiras. A primeira pela violência do tsunami e dos vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas nucleares de Fukushima. A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paciência, honra e respeito de todas as vítimas. Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.

Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte americanas: ninguém queria tirar vantagem sobre ninguém. Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se mantinha em sua área. As crianças não faziam algazarra, não corriam e gritavam, mas se mantinham no espaço que a família havia reservado.

Não furaram as filas para assistência médica – quantas pessoas necessitando de remédios perdidos – mas esperaram sua vez também para receber água, usar o telefone, receber atenção médica, alimentos, roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água.

Compartilharam também do resfriado, da falta de água para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte.

Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques. Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que recebiam. Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de kansha no kokoro: coração de gratidão.

Sumimasen é outra palavra chave. Desculpe, sinto muito, com licença. Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver. Desculpe causar preocupação, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com você, ou tocar à sua porta. Desculpe pela minha dor, pelas minhas lágrimas, pela minha passagem, pela preocupação que estamos causando ao mundo. Sumimasem.

Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas.

O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de mim, perderei. Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto.

Acompanhando as transmissões na TV e na Internet pude pressentir a atenção e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar pânico. As vítimas encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de resgate e delicadamente transportadas – quer para as tendas do exército, que serviam de hospital, quer para as ambulâncias, helicópteros, barcos, que os levariam a hospitais.

Análise da situação por especialistas, informações incessantes a toda população pelos oficiais do governo e a noção bem estabelecida de que “somos um só povo e um só país”.

Telefonei várias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas. Diziam-me do exagero das notícias internacionais, da confiança nas soluções que seriam encontradas e todos me pediram que não cancelasse nossa viagem em Julho próximo.

Aprendemos com essa tragédia o que Buda ensinou há dois mil e quinhentos anos: a vida é transitória, nada é seguro neste mundo, tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente.

Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo está interligado e que nós humanos não somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra. O planeta tem seu próprio movimento e vida. Estamos na superfície, na casquinha mais fina. Os movimentos das placas tectônicas não tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vinganças ou castigos. O que podemos fazer é cuidar da pequena camada produtiva, da água, do solo e do ar que respiramos. E isso já é uma tarefa e tanto.

Aprendemos com o povo japonês que a solidariedade leva à ordem, que a paciência leva à tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva à reconstrução.

Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficará impresso em todos que acompanharam os eventos que se seguiram a 11 de março.

Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a amar e respeitar.

Havia pessoas suas conhecidas na tragédia?, me perguntaram. E só posso dizer : todas. Todas eram e são pessoas de meu conhecimento. Com elas aprendi a orar, a ter fé, paciência, persistência. Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.

Mãos em prece (gassho)”

Monja Coen

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O espírito do blog

Urca, bairro of Rio de Janeiro city. From http...

Image via Wikipedia

Mais uma vez usarei um vídeo do Vimeo, por sinal muito bem feito, para ilustrar o que pretendo manter como espírito do blog.

Topei com ele navegando sem rumo na internet e, admirado com sua beleza, guardei-o no bolso do colete, pois senti que o usaria um dia!

Ele mostra detalhes do bairro da Urca, tão admirado por cariocas e visitantes. Impossível alguém não se apaixonar, pelo bairro, pela música e pela Alma do Rio, totalmente impregnada nesse vídeo!

Além das imagens belíssimas – para apreciá-las melhor, assista em tela cheia clicando no ícone entre a sigla HD e o nome VIMEO – a música da quase desconhecida cantora Mayra Andrade, mais que combina perfeitamente: torna-se parte inseparável do clipe. Gostei tanto de sua voz e da música que fiz contato com o autor do vídeo para saber de quem se tratava e procurar comprar o disco. Comprei-o facilmente em lojas online. Trata-se do  CD Stória, stória…, de 2009, segundo de sua carreira, e a música chama-se Turbulénsa, com letra na língua caboverdiana. Já havia usado uma de suas músicas em minha postagem anterior e gosto muito de retornar com ela aqui!

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Uma vida feliz

Em minhas idas e vindas por esta Cidade Maravilhosa, vi a cena que me fez escrever este pequeno conto. A mãe jovem e seu casal de filhos, os três alegres e despreocupados, fazendo, imagino, seu passeio de compras semanal. Logicamente não os fotografei, mas a cena ficou em minha mente e, romanceando, tornei-os as primeiras vítimas do meu olhar buscador. Ao final da postagem, adicionei um clipe de uma música gravada pela “Mayra Andrade (Havana, Cuba; 1985) é uma cantora cabo-verdiana, reconhecida como uma das mais promissoras da música daquele país.” [Fonte: Wikipédia]

Neide acordou cedo, preparou o almoço, despachou as crianças para a escola e sentou-se em frente à máquina de costura para mais um dia de trabalho. O marido, bem mais cedo, com o céu ainda escuro, já havia saído para o trabalho dele. Precisava encarar o trem e os outros dois ônibus que o levavam, todo santo dia, até o bairro chique onde trabalhava como segurança de um condomínio fechado.
Ela, a cada peça finalizada em sua Singer semiautomática, calculava mentalmente quantas conseguiria fazer naquela manhã antes que os filhos voltassem da escola e ela os fizesse tomar banho, almoçar e resolver seus trabalhos de casa.
Voltava para a máquina sabendo que os dois rapidamente se livrariam dos deveres e colariam nela até que ela os deixasse sair, para se juntar aos amigos nas brincadeiras na ruazinha livre de carros e adultos.
Vicente, 11 meses mais velho que Martinha, era, já aos 10 anos, o craque da rua, adorado
por todos os vizinhos, adultos, crianças e adolescentes. Era o orgulho do pai, Sidnei, o marido de Neide. Enquanto a mãe sonhava para Martinha um futuro brilhante como médica, o de Vicente, o pai já traçara: seria jogador de futebol famoso e chegaria à Seleção. Depois viria a carreira na Europa. Ele, Sidnei, naturalmente, seria seu empresário. Essa foi a única concessão de Neide. Como em tudo nas suas vidas, o planejamento do futuro era com ela. Neide sonhava e dava as ideias. O marido, Sidão – apelido de Sidnei desde os tempos no dente-de-leite no clube do bairro – carregava
o piano e fazia acontecer.
O craque da seleção, com futuro brilhante na Europa, teria sido ele, não fosse aquela paixão da esposa do diretor de futebol por ele. Paixão não correspondida, claro! Pois ele, Sidão, era louco por Neide desde o ginasial, ele aos 14 anos, ela aos 13.
Aos 18 anos, quase profissional, já escolhido pelo técnico para passar a integrar o elenco, tinha aquela quarentona que ficar caidinha por ele?
A mulher deu bandeira e logo o remédio foi aplicado. Num treino, o beque da roça
inexpressivo quebrou, sem querer, a perna de Sidão, que depois dos 6 meses parado, foi parar naquelas geladeiras para onde vão os sem padrinho. Perdeu a chance no time de cima e o sonho da carreira na Europa. Mas não perdeu sua Neide, que logo engravidou, mal Sidão largou as muletas e a fisioterapia. Casaram-se, ganharam a casa da avó de Neide, Vicente nasceu e, enquanto o amamentava, Neide emplacou uma segunda gravidez. Foi a vez de Martinha, que nasceu exatos 11 meses depois de Vicente. O parto, complicado, obrigou o médico a sugerir ao casal uma ligadura de trompas. Portanto, o casal de filhos completou a família. A essa altura, Sidão, já definitivamente afastado do futebol, foi contratado por um dos craques da primeira linha do futebol carioca, para a
equipe de segurança do seu condomínio, na Barra da Tijuca.
Família tranquila com pais amorosos, filhos educados e carinhosos, esses quatro cariocas da gema levavam uma vida simples e feliz. Ao chegar do trabalho, à noite, Sidnei já encontrava os filhos de banho tomado, dever da escola feito e barriga cheia, prontos para dormir. Era só o tempo de dar o beijo de boa noite, ouvir uma ou outra história do dia a dia deles enquanto jantava com Neide, para depois tomar seu banho de noivo – como ele gostava de chamar –, cair na cama e, junto com a mulher, viajar naquele amor gostoso que só os simples e puros conhecem.
Amanhã cedo, pouco antes que o galo cante, ele já estará de pé, a caminho da fortaleza dos nobres, bem longe do seu reino que, ele sabe, ficará nas boas e dedicadas mãos de Neide, sua rainha.

(Clipe copiado do youtube, do canal do usuário joaoes, autor da colagem das gravuras com trilha sonora da música “Morena, menina linda”, interpretada pela cantora caboverdiana (nascida em Havana, Cuba) Mayra Andrade; faixa de seu disco “Stória, stória…”, de 2009.)
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Postagem sabática

Antes mesmo de começar (pra valer!) as postagens deste meu blog, resolvi publicar esse vídeo, que achei muito interessante, e que, apesar de um pouco fora do assunto, no fundo está relacionado de alguma forma, pelo menos para mim! 🙂

Selecione a legenda em português na caixa de seleção que aparecerá abaixo do vídeo, ao lado do botão de play, após o início do mesmo.

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Novidade na blogosfera

Quase 5 e meia, mostra o relógio na parede do salão de leitura da BN, na Cinelândia. 17:22h, confirma a função “Propriedades” do arquivo da foto.

Gatos pingados

Onde estão?

Eu disse salão de leitura? Por onde andam os leitores? Meia dúzia de gatos-pingados não podem representar aquele país que a propaganda dizia ser “feito de homens e livros”. De livros, nós, os gatos-pingados, estávamos cercados por todos os lados; mas, e os leitores? Cadê?

Os mesmos

Continuo procurando!

“Quem escreve é pra ser lido!” Dizia a dedicada Mariângela, coordenadora da escola do meu filho caçula, talvez há uns 16 ou 17 anos, para justificar a cobrança na caligrafia. E quem ainda lembra o que é caligrafia?!?! Consultando o Aurélio, o Houaiss e outros pai-nossos (e até a Wikipédia!), recordamos que é uma palavra que “vem de duas palavras gregas: kalli, significando beleza, e grafia, a escrita. Então caligrafia é a arte da escrita bela.” Mas, lembremos também de que estamos falando de escrita à mão! E agora? Quem aí lembra do último texto – bilhete, carta ou dissertação – que escreveu assim? Difícil? Pois é! Deixemos de lado essa história de escrita à mão e voltemos ao “mundo real”. Hoje escrevemos em teclados!; de microcomputadores, smartphones, iPads, Tablets e outros, que como esses últimos, de tão modernos nem nomes em português receberam! 😉

Livro

Isso é um livro!

Li há poucos dias – é, eu ainda leio! – um texto em que se dizia que não há diálogos nas redes sociais. Na verdade o que existe é uma troca de “torpedos” (perdoem o trocadilho). O que é dito por um – nos fóruns e listas de comentários das redes sociais – é ignorado pelo participante seguinte, interessado tão somente no que ele tem a dizer, não importando o que já foi falado antes da sua valorosa participação.

Mesmo desanimado (ou motivado?) por essa infeliz constatação, mantenho minha determinação em criar e manter um novo blog; sim, mais um para encher a imensa “blogosfera”, definida por alguém como composta por infinitos blogs e infinitos leitores, cada um lendo o seu próprio!

livro aberto

Obrigado por ler-me!

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