Uma vida feliz

Em minhas idas e vindas por esta Cidade Maravilhosa, vi a cena que me fez escrever este pequeno conto. A mãe jovem e seu casal de filhos, os três alegres e despreocupados, fazendo, imagino, seu passeio de compras semanal. Logicamente não os fotografei, mas a cena ficou em minha mente e, romanceando, tornei-os as primeiras vítimas do meu olhar buscador. Ao final da postagem, adicionei um clipe de uma música gravada pela “Mayra Andrade (Havana, Cuba; 1985) é uma cantora cabo-verdiana, reconhecida como uma das mais promissoras da música daquele país.” [Fonte: Wikipédia]

Neide acordou cedo, preparou o almoço, despachou as crianças para a escola e sentou-se em frente à máquina de costura para mais um dia de trabalho. O marido, bem mais cedo, com o céu ainda escuro, já havia saído para o trabalho dele. Precisava encarar o trem e os outros dois ônibus que o levavam, todo santo dia, até o bairro chique onde trabalhava como segurança de um condomínio fechado.
Ela, a cada peça finalizada em sua Singer semiautomática, calculava mentalmente quantas conseguiria fazer naquela manhã antes que os filhos voltassem da escola e ela os fizesse tomar banho, almoçar e resolver seus trabalhos de casa.
Voltava para a máquina sabendo que os dois rapidamente se livrariam dos deveres e colariam nela até que ela os deixasse sair, para se juntar aos amigos nas brincadeiras na ruazinha livre de carros e adultos.
Vicente, 11 meses mais velho que Martinha, era, já aos 10 anos, o craque da rua, adorado
por todos os vizinhos, adultos, crianças e adolescentes. Era o orgulho do pai, Sidnei, o marido de Neide. Enquanto a mãe sonhava para Martinha um futuro brilhante como médica, o de Vicente, o pai já traçara: seria jogador de futebol famoso e chegaria à Seleção. Depois viria a carreira na Europa. Ele, Sidnei, naturalmente, seria seu empresário. Essa foi a única concessão de Neide. Como em tudo nas suas vidas, o planejamento do futuro era com ela. Neide sonhava e dava as ideias. O marido, Sidão – apelido de Sidnei desde os tempos no dente-de-leite no clube do bairro – carregava
o piano e fazia acontecer.
O craque da seleção, com futuro brilhante na Europa, teria sido ele, não fosse aquela paixão da esposa do diretor de futebol por ele. Paixão não correspondida, claro! Pois ele, Sidão, era louco por Neide desde o ginasial, ele aos 14 anos, ela aos 13.
Aos 18 anos, quase profissional, já escolhido pelo técnico para passar a integrar o elenco, tinha aquela quarentona que ficar caidinha por ele?
A mulher deu bandeira e logo o remédio foi aplicado. Num treino, o beque da roça
inexpressivo quebrou, sem querer, a perna de Sidão, que depois dos 6 meses parado, foi parar naquelas geladeiras para onde vão os sem padrinho. Perdeu a chance no time de cima e o sonho da carreira na Europa. Mas não perdeu sua Neide, que logo engravidou, mal Sidão largou as muletas e a fisioterapia. Casaram-se, ganharam a casa da avó de Neide, Vicente nasceu e, enquanto o amamentava, Neide emplacou uma segunda gravidez. Foi a vez de Martinha, que nasceu exatos 11 meses depois de Vicente. O parto, complicado, obrigou o médico a sugerir ao casal uma ligadura de trompas. Portanto, o casal de filhos completou a família. A essa altura, Sidão, já definitivamente afastado do futebol, foi contratado por um dos craques da primeira linha do futebol carioca, para a
equipe de segurança do seu condomínio, na Barra da Tijuca.
Família tranquila com pais amorosos, filhos educados e carinhosos, esses quatro cariocas da gema levavam uma vida simples e feliz. Ao chegar do trabalho, à noite, Sidnei já encontrava os filhos de banho tomado, dever da escola feito e barriga cheia, prontos para dormir. Era só o tempo de dar o beijo de boa noite, ouvir uma ou outra história do dia a dia deles enquanto jantava com Neide, para depois tomar seu banho de noivo – como ele gostava de chamar –, cair na cama e, junto com a mulher, viajar naquele amor gostoso que só os simples e puros conhecem.
Amanhã cedo, pouco antes que o galo cante, ele já estará de pé, a caminho da fortaleza dos nobres, bem longe do seu reino que, ele sabe, ficará nas boas e dedicadas mãos de Neide, sua rainha.

(Clipe copiado do youtube, do canal do usuário joaoes, autor da colagem das gravuras com trilha sonora da música “Morena, menina linda”, interpretada pela cantora caboverdiana (nascida em Havana, Cuba) Mayra Andrade; faixa de seu disco “Stória, stória…”, de 2009.)
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Sobre souldorio

Carioca inconformado com o descaso dos nossos representantes para com o patrimônio econômico, cultural e, principalmente, humano de nossa Cidade Maravilhosa.
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