JJ

Durante muito tempo, deitava-me cedo. Às vezes, mal apagada a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Vou dormir”. E, meia hora depois, a ideia de que já era tempo de conciliar o sono me despertava: queria deixar o livro que julgava ainda ter nas mãos e assoprar a vela; dormindo, não havia deixado de refletir sobre o que acabara de ler, porém tais reflexões haviam tomado um aspecto um tanto singular; parecia-me que era de mim mesmo que o livro falava: uma igreja, um quarteto, a rivalidade de Francisco I e Carlos V.   (trecho de No Caminho de Swann, da obra Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.)

Jorge e Josinaldo viveram toda a vida em eterno conflito. Cresceram juntos disputando a atenção de parentes, amigos, vizinhos ou de quem quer que fosse. Não que isso fosse importante para um como era para o outro, já que, apesar de gêmeos idênticos, tinham cada um seu jeito de ser e de encarar a vida. Apesar dessa visível diferença entre suas personalidades, a indisfarçável semelhança física de gêmeos univitelinos, fez com que os amigos mais criativos passassem a chamá-los – a ambos – de Josinaldo Jorge, como se fossem apenas um. Daí para o apelido JJ, foi só mais um pequeno passo. Eu, que os conheço bem, não vou nomeá-los indicando individualmente seus defeitos e qualidades. No fundo, é tudo “farinha do mesmo saco”!
O que posso contar é que enquanto um curtia uma pelada na vila onde moravam, o outro preferia ficar ouvindo o “Show dos Bairros” na Rádio Mundial e o “Músicas na Passarela” na Rádio Tamoio; ambas em AM, que ainda não haviam chegado os tempos de FM.
Na escola, claro que o que era chegado à música se dava bem nas provas, enquanto o peladeiro passava de ano porque colava do irmão CDF.
Ingressaram juntos em escola militar quando chegou a hora de cursar o científico – que depois passou a ser chamado de segundo grau e finalmente ensino médio. Curiosamente nenhum dos dois decidiu seguir carreira, lógico que por motivos diferentes: um por ser tímido demais para dar e seguir ordens aos gritos, o outro por ser distraído e destrambelhado em demasia para pertencer ao quadro de carreira de qualquer instituição militar que fosse.
Torcedores fanáticos do Fluminense Football Club – tradicional agremiação desportiva da cidade do Rio de Janeiro – o verdadeiro TRICOLOR, eram frequentadores animados das arquibancadas do velho Maraca. Até que as primeiras paixões sérias começaram a ocupar cada vez mais espaço em suas vidas. Como sempre, cada um vivia seus romances à sua própria maneira: um apaixonava-se com facilidade, bastando que a menina o derretesse com seus olhares ‘cupidosos’. Já o outro, claro, preferia a conquista barata e o gozo fácil e fugaz. Um casou cedo e logo foi pai, o outro preferiu continuar a viver de breves romances.
No trabalho, ambos conseguiram sempre suprir suas necessidades, um por meio de seus esforços e aplicação, que lhe renderam aprovação em vários concursos públicos até conseguir aquele onde achava que poderia acomodar seu espírito pacífico e contemplativo; o outro, como não poderia deixar de ser, seguia na aba do irmão, que sempre lhe arrumava o que fazer.
Hoje, essa dupla de sessentões cariocas, parte rumo a outros destinos, ou melhor, tentam fazer de seus destinos algo que valha a pena. No amor, aquele outrora apaixonado rapaz, ainda busca sua companheira da melhor idade. Filhos criados, netos crescendo ou chegando, é hora de namoro maduro e esse é o seu maior objetivo. O fanfarrão, o pretenso garanhão, agora aprendeu a valorizar as qualidades do irmão careta e procura estar sempre perto dele; quem sabe lhe sobra uma das boas mulheres que se interessam pelo – ainda – romântico e apaixonado idoso?

(E aí você perguntaria: “o que te fez associar este vídeo a esta estória?” É preciso um motivo? Respondo eu com outra pergunta. Como estou com tempo neste momento, conto que ao assistir no Vimeo a mais esse vídeo do Alex Vargens que, involuntariamente, está virando meu “sócio”, vidrei na face do senhor idoso que aparece lá pelos 0:56 e isso me bastou.)
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Sobre souldorio

Carioca inconformado com o descaso dos nossos representantes para com o patrimônio econômico, cultural e, principalmente, humano de nossa Cidade Maravilhosa.
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